Peço que leiam o artigo abaixo, do Monitor Mercantil. Em meio aos questionamentos que fazemos sobre o rumo do ecumenismo ou mesmo sobre a sua finalidade, vejo as duras palavras do Reverendo Anglicano Carlos Eduardo Calvani como sinal inquestionável da inutilidade do diálogo.
Obrigado, Bento XVI
Conforme um dito popular, "Deus escreve certo por linhas tortas". Nunca parei para refletir mais profundamente sobre esse ditado. Mas sempre o escuto e, provavelmente, também já devo tê-lo repetido uma ou outra vez na vida.
Devo confessar que, nos últimos dias, esse ditado reapareceu em minha memória, por conta de todas as discussões sobre a mais recente artimanha do Vaticano, de criar uma provisão especial para receber na Igreja Romana anglicanos dissidentes e insatisfeitos. Graças a Deus nunca fui católico-romano e não tenho qualquer compromisso de ser bem educado para com Ratzinger - sempre o considerei (mesmo antes de ser Papa), um teólogo "torto", mais preocupado com a restauração do passado do que propriamente com a construção do futuro. Mas Deus, em sua insondável sabedoria, pode até mesmo usar caminhos tortos. Lá no Antigo Testamento, até uma mula (ou jumento) poderia ser porta-voz dos desígnios divinos...
Sei que, ao escrever isto, correrei o risco de ouvir de alguns colegas: "você precisa ser mais polido... você ofendeu o papa...". A estes eu respondo: "onde está nossa auto-estima? vamos continuar oferecendo a outra face e quantas partes mais do corpo quiserem para nos agredir? Que masoquismo eclesiástico é este?" Bem mais ofendidos ficaram muitos anglicanos, inicialmente. Alguns anglicanos como eu, também já ficaram bastante constrangidos em reuniões ecumênicas (participei durante um tempo da Comissão Teológica do Conic) e poderia citar, se o espaço fosse maior, exemplos do constrangimento pelo qual passamos diante do peso e da pressão da Igreja Católica Romana para que aprovemos aquilo que interessa a eles.
Agora, em 2010 teremos Campanha da Fraternidade "Ecumênica". Confesso que, particularmente, não tenho qualquer interesse em colaborar ou participar de uma campanha em que as demais igrejas (pequenas, coitadinhas), são usadas para render frutos à Igreja Católica Romana. Gostaria de saber mesmo, quando é que a organização da "Campanha da Fraternidade Ecumênica" apoiará e defenderá uma proposta feita por mim mesmo, de que um dos temas mais urgentes a tratar, nacionalmente, é a questão da pedofilia. Quando eu disse isso, em reunião da Comissão Teológica do CONIC, fui ignorado. A única reação que percebi foram alguns sorrisos desconfortáveis, como se eu estivesse querendo ironizar ou cutucar onça com vara curta... Minha proposta sequer foi discutida. Depois alguns padres amigos me disseram: "A Igreja Romana nunca irá abordar esse tema..."
Li o texto oficial do Vaticano, ouvi e li também algumas opiniões e cheguei até mesmo a provocar o querido colega Rev. Luiz Alberto Barbosa, secretário-executivo do Conic, para saber se esse organismo iria emitir algum pronunciamento condenando a medida. Hoje, porém, dou meu braço a torcer e minha mão à palmatória, porque estou chegando à conclusão que a jogada política do Vaticano, apesar de ser um golpe baixo (digno de seus redatores) e que põe ainda mais cimento no caixão do falecido ecumenismo institucional, pode ser encarado como uma provisão abençoada para a Comunhão Anglicana.
Um querido bispo da IEAB enviou-me um email dias atrás, lembrando que vivemos o primado da perversão em todos os segmentos, e que mesmo as igrejas não escapam disso. As atuações perversas, diz ele, estão sempre escondidas por traz do biombo de belas palavras, versículos bíblicos e citações de teólogos antigos. E a utilização desses recursos pelos perversos, lhes proporciona um gozo imenso.
Lembrei-me também de um pequeno poema, do extraordinário poeta português Guerra Junqueiro (1850-1923). Embora dirigido, especificamente aos jesuítas, pode aplicar-se também a outros que, mesmo não sendo jesuítas, se identifiquem com o atual papado:
Ó Jesuítas, vós sois dum faro tão astuto
Tendes tal corrupção e tal velhacaria
Que é incrível até que o filho de Maria
Não seja inda velhaco e não seja corrupto
Andando a tanto tempo em tão má companhia
Pelo que entendi da "Constituição Apostólica Anglicanorum Coetibus" (este é o pomposo nome oficial), a Igreja Romana está abrindo as portas para receber diáconos, presbíteros ou bispos anglicanos "como candidatos às sagradas ordens na Igreja Católica". Ou seja, os anglicanos que debandarem para lá, não terão suas ordens reconhecidas e deverão ser "reordenados". Os que forem casados devem observar algumas normas da época de Paulo VI, enquanto os não-casados devem ater-se ao celibato. Mais à frente, o documento diz: "o ordinário... admitirá somente homens celibatários à ordem do presbiterado".
A situação mais cômoda é para os padres que foram ordenados na Igreja Católica Romana e que foram recebidos (sem reordenação) na Igreja Anglicana. Esses, se forem celibatários, podem voltar e serão recebidos como "filhos pródigos". Se forem casados, porém, a situação será um pouco mais complicada, mas ainda assim terão seu espaço garantido junto ao trono de São Pedro para comer das migalhas que caem da mesa papal.
Mas, no frigir dos ovos, a provisão do Vaticano se transformará em uma bênção para a Comunhão Anglicana. A ela atenderão os clérigos e bispos com vocação inquisitorial, que sentem cheiro de heresia em qualquer palavra ou em qualquer texto; a ela atenderão os clérigos e bispos machistas, que não suportam ver uma mulher de batina; a ela atenderão os romanistas disfarçados, que sempre reclamam o fato de as igrejas da Comunhão Anglicana não terem uma autoridade central, mas uma autoridade dispersa; a ela atenderão os recalcados que desconfiam de qualquer ação pastoral que contrarie os cânones da ética sexual romana.
Estes, que atenderão à oferta do Vaticano, realmente não se sentem confortáveis nas igrejas da Comunhão Anglicana. Parodiando a 1ª epístola de João, eu diria - "estes saíram do meio de nós, mas não eram dos nossos. Se tivessem sido dos nossos, teriam permanecido conosco".
Por isso, tudo, devemos agradecer a Bento XVI e a seus assessores, pelo bem que proporcionaram à Comunhão Anglicana.
Que Deus lhes retribua em porções dobradas todo o bem que nos fizeram.
Rev. Carlos Eduardo Calvani
Padre da Diocese Anglicana do Rio de Janeiro
Publicado anteriormente no site da Adital (http://www.adital.com.br/)
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As palavras do ilustre reverendo, cheias de despeito, mostram justamente o que está ficando na não menos pomposa “comunhão anglicana”. Há, é claro, exceções. Há bons reverendos dentro do anglicanismo e admitir isso não é “heresia”. Newman era um bom pastor anglicano e tornou-se católico, C.S. Lewis, contudo, perseverou no anglicanismo, mas seus escritos continuam inspiradores.
O que devemos focar aqui é justamente no fruto menor do diálogo ecumênico – a compreensão mutua. Se a unidade, fruto maior, já não é cogitada nos meios ecumênicos, vemos que a compreensão não é muito exercitada.
Que frutos, de fato, trazem as Campanhas Ecumênicas? Cabe aos responsáveis pelo CONIC responderem. A Igreja Metodista já os deixou, alegando que não participa de nenhuma agremiação de igrejas onde a Igreja Católica também fizer parte. Agora vemos e lemos o ranço anglicano. Que sobrará? Ora, simples, a única e verdadeira Igreja de Cristo perceber-se-á uma vez mais como uma solitária peregrina.







